Merlyna Lim e Mark Kann disponibilizaram online um ensaio sobre a Deliberação Democrática nas redes sociais. O texto tem o título Democratic Deliberation and Mobilization on the Internet.

Interessou-me mais a primeira parte do texto em que os autores abordam o tema da Deliberação como base de legitimação da decisão política, e por conseguinte, da própria Democracia. Uma boa deliberação é a pedra de toque de uma democracia legítima. Um cidadão ao ter a noção que uma decisão política foi tomada em consciência, (mesmo que contra a sua opinião) confiará mais nos seus líderes políticos.

Os autores exploram a ideia da Internet como um meio Convivial de convergência, de baixo custo, de vasta disponibilidade e resistente ao controlo e à censura. Sendo ainda outra da suas vantagens o facto de facilitar a comunicação e partilha um-para-um (como já faziam o telefone e o telégrafo), de um-para-muitos (como a televisão e os jornais) e por fim de muitos-para-muitos.

O termo Convivial refere-se, segundo os autores, a um meio onde são possíveis interacções autónomas, criativas e interacções entre os indivíduos e os seus ambientes; em contraste com as respostas condicionadas desses indivíduos às exigências feitas por outros.

Deliberação Online
Sobre este tema os autores afirmam que este processo se iniciou em finais dos anos 90, quando alguns investigadores começaram a adaptar a democracia deliberativa à Internet.

A deliberação é um processo lento na Internet porque requer tempo para reflexão, análise de documentos, etc. Mas por outro lado a mesma Internet veio permitir que um indivíduo possa estar “presente” em várias deliberações que ocorrem simultaneamente. E a Internet resolve esse problema de 2 formas:
1ª – A natureza assíncrona da Internet torna possível uma discussão de muitos-para-muitos.
2ª – A Internet pode conter um número variado de fóruns a decorrer. Ninguém tem tempo para deliberar sobre assuntos variados ao mesmo tempo, mas outras pessoas podem fazê-lo por ele.

O objectivo da deliberação online é informar representantes eleitos, e aumentar a sua legitimidade como mediadores políticos. (Repare-se na enorme diferença no papel dos políticos que é aqui proposta, em que o conceito de REPRESENTANTE do povo é levada mais além, passando estes a ser meros mediadores da vontade dos eleitores que os elegeram.)

Por outro lado a democracia deliberativa inibe a própria Democracia. Os autores apontam Harry Cleaver como defensor desta ideia porque o tempo e energia que as pessoas colocam na deliberação poderia ser aplicado noutras tarefas mais produtivas de participação cívica. Por um lado a conversa deliberativa atinge poucos objectivos quando as elites políticas e económicas não dão atenção às necessidades dos cidadãos, por outro lado a história diz-nos que o activismo social e político tem mais probabilidade de sucesso na mudança das democracias.

Mobilização democrática
Cientistas sociais consideram a mobilização democrática de indivíduos como pertencendo à categoria dos movimentos sociais, definidos como uma aliança abrangente de pessoas ligadas entre si por um interesse comum em promover ou combater mudanças sociais.

Alguns académicos e activistas acreditam que as democracias estão a degenerar em estados tecnocráticos autoritários, à medida que se vão subjugando ao poder e interesses de mercados. Em suma as pessoas ficaram dominadas por estados tecnocratas e forças de mercado, e o seu papel principal resume-se ao de consumidores manipulados.

Os autores citam Alan Touraine, afirmando que o estado, o mercado e o domínio das comunicações e media estão gradualmente a diminuir a liberdade dos indivíduos. Enquanto o activismo se esforça pela inclusão, autonomia, e por fim a democracia, a mobilização por vezes foca-se em princípios menos democráticos uma vez que a sociedade civil não pode livrar-se de elementos menos civilizados.

Historicamente os activistas incorporaram muitas tecnologias nas suas mobilizações, incluindo jornais, radio, televisão, cinema, e outras tecnologias de comunicação. No início dos anos 90, estava na altura de abraçar a Internet. A última década testemunhou o crescimento de mobilizações democráticas online confrontando estados-nação e centros de poder globais através de novas formas de comunicação, criação de comunidades sociais e resistência.

As ferramentas de colaboração online possuem o potencial de aumentar a escala de esforços organizativos ao mesmo tempo mantendo os custos baixos. Com o e-mail é possível enviar milhões de anúncios, solicitações de doações, e pedidos de acção pelo preço de um selo de correios. Com e-mails ou sítios web é possível alcançar uma audiência de milhões quase de borla, comparando com anúncios de TV.

O sucesso de eventos de massas, como os protestos de Seattle, requerem o uso de vários media bem como o uso de tacticas de organização. A Intermodalidade entre a Internet e outras redes de media, como os telemóveis, bem como entre o ciberespaço e o espaço geográfico é necessária para suportar a disseminação de informação, bem como mobilizar e organizar acção.

Estruturas descentralizadas e distribuídas:
A Internet desafia as estruturas convencionais de organização de movimentos sociais. Ao invés de se apoiar em estruturas hierarquicas e centralizadas. A Internet pode ser utilizada para implementar estruturas descentralizadas e distribuídas. Mesmo as técnicas de disseminação d einformação baseadas em telefone e fax, requeriam estruturas hierarquicas ao contrário das mialing lists e aplicações P2P (peer-to-peer) que possibilitam aos activistas organizar muito rapidamente a coordenação logística e supervisão da organização.

O e-mail como ferramenta de disseminação de informação:
O uso do e-mail para a mobilização online motivando as pessoas tem sido muito utilizado construíndo relações de confiança e comunidades democráticas, mais do que apenas a disseminação de informação. Neste contexto o e-mail oferece uma forma simples e familiar de comunicação personalizada e directa com os potenciais activistas. Mas não só, também algumas ferramentas de angariação de fundos evoluiram do e-mail incluindo o Convio, eBase, GetActive, TheDataBank, NonProfit Matrix e Kintera.

A Cultura da remistura:
A emergência das redes digitais bem como ferramentas de authoring digital disseminaram o surgimento da cultura da remistura. A crescente facilidade na aquisição destas ferramentas e a facilidade em distribuir ficheiros online, aumentaram a produção da cultura da remistura e mash-up focada na política. No original, remix, começou por ser um termo utilizado na indústria musical para peças musicais reeditadas por outros autores adicionando-lhes novos elementos à música.
Críticos vêm estas produções como manifestações de uma cultura de jovens sem filiação política ou até da pós-modernidade. Mesmo quando a sua produção é explicitamente política pode não ser democrática ao mesmo tempo. No entanto estas produções amadoras demonstram que os indivíduos podem interessar-se activamente na esfera pública, eles não apenas consomem a informação política mas também expressam as suas ideias através da distribuição das suas peças. Estas peças podem não conter per si valores democráticos, mas tal como a Internet a cultura da remistura é convivial.

Conclusão:
Os autores começam por afirmar que devido ao facto de os fenómenos da Deliberação Democrática e Mobilização Democrática online serem recentes, ainda não é possível prever o grau de impacto real na democratização das sociedades tirando partindo da característica convivial da Internet:
– Primeiro porque a deliberação e a mobilização online são formas de participação democrática que possuem diferentes, e até mesmo conflituosos, propósitos. Se bem que a conversa democrática potencia sempre a democracia onde esta mais ou menos existe. No entanto devemos ter em linha de contaque a democracia deliberativa convida à estabilidade e a mobilização democrática promove a ruptura das elites estabelecidas, sendo assim provável que ambas choquem em certos aspectos.
– Segundo, a Internet irá sem dúvida alguma ampliar a extensão da democracia deliberativa bem como das mobilizações democráticas. Sejam eles um tipo de conversa democrática ou mesmo acção, é expectável que venhamos a encontrar formas híbridas de participação online e offline no futuro.
No passado assitimos a tentativas menos conseguidas de participação devido ao facto de: (1) as reuniões terem uma longa duração, e (2) o activismo requer um empenho a tempo inteiro. No entanto a grande vantagem da Internet é a de que esta abre possibilidade a formas de activismo e deliberação a tempo parcial.

“Internet Conviviality does not have much new to offer in the way of deliberation. Offline and online, the rules of rational discourse are pretty much the same. However, the first rumblings of an online participatory culture that invites amateur participation, promotes a sense of cultural agency, and fosters peer-to-peer networks – facilitated by affordable digital technology, networked tools, and social software – indicates that the Internet may become a more powerful gateway for people on the sidelines to become local, even global activists.”

Merlyma Lim e Mark Kann